Procura-se Banksy, o guerrilheiro do stencil
Jornal Economico
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Subversivo? Brilhante? Polémico? Não faltam adjetivos para colar a Banksy, o misterioso street artist que vai deixando as suas críticas pelo mundo fora. A mais recente surgiu em Londres. Desta vez, uma escultura. Um homem vendado por uma bandeira prestes a dar um passo em falso. A guerrilha passou de moda? Sobrevive no conforto do sofá de copo na mão? Neste caso, a resposta é absolutamente irrelevante porque não se aplica. Banksy, provável pseudónimo de Robin Gunningham, cultiva a guerrilha do stencil um pouco por todo o mundo desde os anos 90. Paredes, muros, empenas são as suas telas. A cidade o seu museu. Reclama o espaço urbano como seu e vai deixando as suas mensagens pictóricas, poéticas, políticas, sociais. Irónicas, sempre. A singularidade deste street artist reside num delicioso paradoxo: apesar de ilegal e anónima, a sua obra já atingiu milhões de euros nas grandes leiloeiras. Mas porquê falar de Banksy pela enésima vez? Porque é sempre um excelente ponto de partida para um debate. Acalorado e a oscilar entre o “love or hate”. Banksy não é consensual. E ainda bem. Mas já iremos aprofundar essa faceta. Antes, vamos até Londres, onde voltou a dar que falar desde que ‘plantou’ uma escultura em Mayfair, na Waterloo Square, desenhada no século XIX como montra do imperialismo britânico. São muitas as campainhas que soam ao nome Waterloo, essa batalha histórica, travada a 18 de junho de 1815, que pôs termo ao império napoleónico, após 23 anos de guerra entre a França e outros países europeus. O teatro da luta foi o lugar de Waterloo, atual Bélgica, onde os exércitos de Wellington e do prussiano Blücher se agruparam contra as tropas francesas... Assim caiu Napoleão. De regresso à praça londrina, e confirmada a autoria da escultura, qual será a mensagem que Banksy quer passar? Um homem de fato, com o rosto coberto por uma bandeira desfraldada ao vento, dá um passo no vazio (cadafalso?) numa praça altamente simbólica, onde tem por companhia Eduardo VII, Florence Nightingale e o Memorial da Guerra da Crimeia. Uma localização pouco ou nada inocente. Como muitas outras localizações que o artista tem escolhido pelo mundo fora para deixar a sua marca. Ou melhor, para exercer a sua visão de cidadania. Ostensivamente política. Exato. “Love or hate”. Um artista sem rosto... A Reuters divulgou em meados de março deste ano uma extensa investigação para elucidar o mundo, de uma vez por todas, sobre a verdadeira identidade de Banksy. Nascido em Bristol, Inglaterra, em 1973, Robin Gunningham, agora David Jobes, é a pessoa por trás do pseudónimo, garante a agência de notícias. Pessoas próximas do artista contestam as conclusões da investigação. Não temos como desmentir uns e outros, pelo que escolhemos começar pelo princípio. Pelas paredes. E pela cena underground de Bristol dos anos 90. Consta que fazia parte da DryBreadZ Crew. Aprendeu rapidamente que, para escapar à polícia, tinha de ser um ‘ninja’ com precisão cirúrgica. Estava encontrada a estratégia. O stencil passou a ser a sua ‘arma’ e a objetividade a sua melhor aliada. Economia de meios? Sim. Eficaz? Muito. Pouco importa se a autoria é de Robin Gunningham, David Jobes ou Robert Banks (outro nome invocado em tempos). O que importa é que a obra precede o artista e o anonimato dá-lhe uma enorme liberdade. Porquê? Porque assim a obra não fica espartilhada pela biografia do seu autor. E talvez seja mais fácil digerir as intervenções de um artista sem rosto – empenhado em apontar ao capitalismo, mas que também fatura com ele. Até aqui nada de novo. Andy Wharol, Marcel Duchamp e muitos outros ascenderam a stars parodiando e fruindo do sistema capitalista. Talvez Banksy faça parte destes curtos-circuitos simbólicos onde a eficácia da crítica e a cumplicidade com o sistema coabitam sem nunca se anularem. A verdade é que ele continua a intervir como e onde bem entende: no espaço público ou nas paredes de museus à revelia das instituições. Criou a sua própria estrutura de vendas oficiais, a Pest Control, espécie de ‘certificado de autenticação’ das suas obras, a par dos posts que publica no Instagram a reivindicar a autoria. Ao rejeitar a lógica do negócio/representação das galerias, assume-se como produtor e galerista. Pormenor irrelevante? Longe disso. Basta ouvir as declarações à BBC de um porta-voz de Westminster City Council, a entidade responsável pela zona onde apareceu a mais recente intervenção de Banksy em Londres – sim, a tal escultura – para percebermos que a ‘fórmula Banksy’ resulta. “É com grande entusiasmo que recebemos a mais recente intervenção de Banksy em Westminster, como mais um contributo para a vibrante cena de arte urbana londrina. Já tomámos medidas para proteger a escultura, mas esta continua acessível para o público poder fruir dela.” ... que agita o mercado A mensagem e método de Banksy, i.e., falar de política ocupando o espaço público, é tudo menos consensual. Já o dissemos. Mas talvez seja por essa mesma razão que o mercado se agita sempre que uma obra sua, em suportes mais intimistas, como a pintura, entra no catálogo das grandes leiloeiras. Investimento? Gosto pessoal? Pouco importa. Se tem a assinatura Banksy, é cobiçada. E nem performances inesperadas como a autodestruição de “Girl With Balloon” – uma das suas obras mais célebres – assim que o martelo assinalou a venda por 1,42 milhões de libras (1,2 milhões de euros), num leilão da Sotheby’s, em 2018, arrefecem o interesse. Três anos depois, a obra foi renomeada pelo artista – “Love Is In The Bin” – e vendida por um valor recorde: 21,8 milhões de euros, 18 vezes o valor original. Ou seja, quando estava intacta. De volta ao presente, a pergunta impõe-se. O que acontecerá à mais recente intervenção deste guerrilheiro do stencil? A tal escultura instalada na praça Waterloo de uma figura masculina de fato, empunhando uma bandeira que ‘rima’ com cegueira, prestes a dar um passo em falso?
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