K-Pop resiste na China e é atrativo turístico em Macau e Hong Kong
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Dez anos após a proibição informal de concertos de K-Pop na China continental, o género musical sul-coreano continua a mobilizar milhões de fãs chineses, garantem à Lusa fãs e académicos, com Macau e Hong Kong a serem as únicas regiões chinesas em que estes são autorizados atualmente. A K-Pop é um género musical da Coreia do Sul, que combina pop, hip-hop, R&B e eletrónica com coreografias sincronizadas, moda inovadora e uma produção com investimentos avultados. Surgido no anos 90, o género musical tornou-se um fenómeno global focado em grupos de ídolos, como o grupo masculino BTS ou o feminino Blackpink, presentes regularmente nas listas de músicas mais ouvidas e nos maiores festivais de música internacionais. No último mês mais de 30.000 pessoas, a maioria do interior da China, estiveram presentes no K-Spark, um festival de música pop sul-coreana na zona do Cotai de Macau, coração da indústria dos casinos local. Cassie Yan, uma advogada de 32 anos da província de Fujian, que esteve presente em Macau para o festival, diz à Lusa que o seu fascínio pela K-Pop foi uma "parte marcante da vida escolar". "Partilhar recortes de revistas nos intervalos, recomendar grupos uns aos outros, discutir os programas e visuais dos ídolos e até aprender coreografias tornou-se uma linguagem social comum", descreve. A fã conta ainda como nos últimos 10 anos esta paixão se "traduziu cada vez mais em viagens", seja para o exterior, seja para Macau e Hong Kong, porque as duas regiões administrativas especiais da China são os únicos locais onde concertos de artistas de K-Pop são permitidos em todo o gigante asiático. O investigador de sociologia na Universidade Kansai Gaidai em Osaka, Ingyu Oh, descreve à Lusa que, até 2016, a China funcionava como um os maiores mercados para a indústria, além de "viveiro de talentos, plataforma de marcas e infraestrutura de digressões", quando uma súbita proibição pós um fim a essa presença. Nesse ano, uma decisão por parte da Coreia do Sul de instalar um sistema norte-americano de defesa antimíssil foi visto por Pequim como uma ameaça à sua segurança, levando à imposição de uma proibição não-oficial sobre artistas, 'shows' e conteúdos de entretenimento sul-coreanos, mas também restringindo transmissões televisivas de concertos. "A proibição desmantelou o ecossistema", explica Ingyu. "O que resta é um sistema sustentado na internet e sem acesso físico ao mercado", acrescenta. Para o especialista em cultura pop sul-coreana, desde 2016, o consumo de conteúdos culturais sul-coreanos passou a ser "regulado de forma opaca e caso-a-caso", funcionando como um instrumento de diplomacia por parte do Governo chinês. Algo semelhante aconteceu recentemente, com 'performances' de artistas japoneses, canceladas abruptamente desde novembro do ano passado, depois da líder do Japão, Sanae Takaichi, ter afirmado no parlamento nipónico que o país poderia intervir no caso de uma invasão por parte da China a Taiwan. Apesar da proibição, Ingyu realça que o fenómeno K-Pop se manteve vivo na China com "uma economia de fãs intensamente organizada e sustentada digitalmente". O especialista aponta números impressionantes, como as importações de álbuns sul-coreanos, que atingiram quase 60 milhões de dólares em 2023, quase o dobro do ano anterior, impulsionadas sobretudo por compras 'online' dos fãs. Macau tem tentado usar concertos e eventos de entretenimento em grande escala como uma estratégia para diversificar a economia, muito dependente dos casinos e do jogo. Nos últimos anos, isso traduziu-se em concertos de bandas de K-Pop, realizados quase semanalmente, tanto nas grandes salas de concertos das operadoras de jogo, como em espaços designados pelo Governo local. "Macau não é necessariamente o melhor lugar, mas é a opção mais equilibrada. Praticamente todos os grandes grupos em digressão mundial incluem Macau nos itinerários", descreve Cassie Yen à Lusa. A fã considera que, comparada com Hong Kong e Taiwan, "Macau oferece melhor relação qualidade-preço, boa hotelaria e bons recintos". Ainda assim, diz Ingyu, Macau e Hong Kong não conseguem satisfazer a procura massiva dos fãs chineses e, embora ofereçam visibilidade ao género, "não proporcionam nem estabilidade nem escala", com concertos cancelados à última hora e, sobretudo no caso de Macau, com recintos limitados pela dimensão do mercado. Patricia Cheong, presidente da Associação Internacional das Indústrias Culturais e Desportivas de Macau, admite à Lusa que a atual capacidade de eventos de Macau "não é fácil para os organizadores terem lucros". "Hong Kong tem mais vantagens para atrair artistas de topo, graças a recintos maiores, como o novo Estádio de Kai Tak", sublinha, referindo-se a um novo espaço aberto na cidade em 2026 com capacidade para 50.000 pessoas. Quanto ao futuro, Ingyu vê poucas hipóteses de uma reabertura plena do interior da China, sugerindo que o que pode vir a acontecer é um "alívio seletivo e simbólico, mais do que uma normalização completa". "Melhorias no tom diplomático podem produzir aberturas incrementais, mas um regresso total ao intercâmbio cultural pré-2016 é improvável, sem uma mudança estrutural mais ampla na geopolítica regional", prevê o investigador. Leia Também: Marcelo Rebelo de Sousa diverte-se em concerto de K-Pop. "Nunca imaginei"
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