'Achava que Deus iria mudá-lo': alerta viralizado de pastora evidencia papel das igrejas contra a violência doméstica
O Globo
Image: O Globo
'Achava que Deus iria mudá-lo': alerta viralizado de pastora evidencia papel das igrejas contra a violência doméstica Estatísticas apontam que os espaços religiosos estão entre os mais buscados por mulheres alvo de agressão RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 15/05/2026 - 20:36 Pastora incentiva evangélicas a denunciarem violência doméstica A pastora Helena Raquel, da Assembleia de Deus, viralizou nas redes sociais ao incentivar mulheres evangélicas vítimas de violência doméstica a denunciarem seus agressores. Com forte apelo, ela destaca que orar não substitui a necessidade de ação legal. As igrejas, frequentemente procuradas por vítimas, se mobilizam na conscientização e apoio às mulheres, desafiando tabus religiosos sobre divórcio e violência. Iniciativas como “Igreja Pela Vida das Mulheres” e “Quebrando o Silêncio” buscam informar e apoiar as vítimas, enquanto líderes religiosos debatem o papel das igrejas na proteção contra a violência. "Pare de orar por ele”, vaticina a voz feminina firme, no tom tradicional das pregações religiosas, “e comece a orar por você”. O discurso da pastora Helena Raquel, da Assembleia de Deus Vida na Palavra (ADPIV), conquistou as redes sociais, atraindo atenção da esquerda à direita, com a defesa enfática de que mulheres evangélicas vítimas de violência doméstica procurem a polícia para denunciar o agressor. O alerta soma-se a outras iniciativas de conscientização dentro de igrejas, voltadas a enfrentar o tema em um meio no qual o divórcio ainda é visto como tabu e que tem a defesa incondicional da família como um dos pilares de sustentação. Estatísticas apontam que os espaços religiosos estão entre os mais buscados por mulheres alvo de agressão. Dados da Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher 2025, feita pelo DataSenado, mostram que 52% das vítimas recorrem exatamente às igrejas em busca de auxílio. Quando o recorte é apenas entre evangélicas, o indíce salta para 69%. — Violência doméstica é pecado, é crime e é destruição da família. A igreja não é lugar de silêncio diante disso. A Bíblia protege a vida, a dignidade e a família, e a mulher vítima precisa ser acolhida, orientada e encaminhada aos meios legais de proteção — frisa o bispo Abner Ferreira, um dos principais nomes da Assembleia de Deus, maior pentecostal do país. Já o relatório “Visível e invisível: a vitimização de mulheres no Brasil”, conduzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) em parceria com o Datafolha, mostrou que a violência de gênero nos últimos 12 meses atingiu o maior patamar da série histórica, iniciada em 2016. Dentre as entrevistadas, 42,7% das mulheres que se identificaram como evangélicas sofreram alguma agressão ao longo da vida, ante 35% das católicas. — Pare de orar por ele hoje, e comece a orar por você. Você precisa ter coragem para sair e fazer a denúncia em uma Delegacia da Mulher ou em qualquer outro lugar. Você precisa, com urgência, ligar para alguém de confiança e buscar um lugar seguro. E não acredite no pedido de desculpas, porque quem agride mata — discorre a pastora Helena Raquel na pregação viralizada. A declaração postada no início de maio no perfil da líder religiosa no Instagram, onde ela soma hoje quase 2 milhões de seguidores, ganhou apoio de diferentes matizes. Os elogios vieram de antagonistas na esfera pública como a primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja, e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. — Vi com satisfação, pela relevância de ambas. Violência contra a mulher e abuso infantil são temas humanitários e independem de posições partidárias — diz Raquel ao GLOBO, lamentando, porém, os contornos políticos da repercussão. — Mas não permitirei que o descontentamento me paralise. Seguirei cooperando como mulher, mãe e pastora para uma transformação tão necessária na sociedade. Lideranças evangélicas de peso, como o pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo (ADVEC), também ecoaram o discurso. Malafaia, no entanto, questiona dados usados por Raquel, corroborados pelo relatório do FBSP, de que mais de 40% das evangélicas já teriam sofrido violência doméstica: — Não é verdade. A marca da igreja evangélica é recuperar pessoas. Quantos bêbados, perversos e vagabundos que batiam na mulher não foram transformados pelo Evangelho? E não passamos pano. Se chegar dizendo que é espancada pelo marido, falamos para ir na delegacia, e ele é excluído da igreja. Mas o alerta dela é válido, tem meu aplauso. ‘Achava que deus ia mudá-lo’ Joana (nome fictício), de 49 anos, passou quase uma década sofrendo violências do então marido, pastor de uma pequena igreja em São Gonçalo (RJ). Por influência da comunidade religiosa, ela acabava optando por persistir na fé. — Sempre sofri com os ataques verbais e as manipulações psicológicas, desde o comecinho. Com o passar dos anos, a situação piorou e vieram as violências físicas. Acreditava que, por meio da oração e campanhas na igreja, Deus iria mudá-lo, mas aprendi que Jesus só age em quem realmente deseja ser transformado — lembra ela, que também é filha de pastor. Quando chegou ao limite, foi também na igreja que Joana encontrou ajuda. Conheceu uma rede de mulheres de outra congregação, diferente da que o marido atuava, e recebeu apoio para denunciar a violência, buscar uma medida protetiva contra o agressor e se divorciar. — Elas (as mulheres do grupo) me salvaram. Não me julgaram e nem condenaram. Pelo contrário, me incentivaram a denunciar e ir ao psicólogo. Episódios similares motivaram a criação do Programa Igreja Pela Vida das Mulheres, coordenado pela Promotoria de Justiça de Campinas, do Ministério Público de São Paulo, em parceria com a prefeitura e com congregações locais. O projeto distribui cartilhas sobre violência contra a mulher, propõe protocolos de acolhimento a vítimas para líderes religiosos e estimula rodas de conversa com homens, entre outras medidas. — A correta difusão de informação qualificada sobre o ciclo da violência e sobre a estrutura da rede de apoio, e a consciência, dos líderes religiosos, de que podem responder por omissão, é capaz de salvar muitas vidas. Para muitas pessoas, a igreja é o único espaço de formação de laços que possuem — destaca a promotora Cristiane Corrêa de Souza Hillal, à frente do programa. A Igreja Adventista do Sétimo Dia criou, ainda em 2002, o projeto “Quebrando o silêncio”. Anualmente, são elaboradas cartilhas que tratam de temas como feminicídio, o ciclo da violência e a diferença entre ataques físicos e psicológicos, distribuídas em 30 mil unidades da congregação no Brasil e na América Latina. — Nosso principal foco é a violência doméstica, mas também tratamos de vertentes como os ataques a idosos, crianças e digital. Acreditamos que a agressão se alimenta da desinformação, e tem gente que está sendo vítima sem saber identificar. Nossa ideia é mudar esse cenário através da prevenção e da conscientização — explica Jeanete Nunes Pinto, coordenadora do projeto. ‘Se liga, irmã’ Já o “Se liga, irmã”, elaborado pela senadora Damares Alves (Republicanos-DF) em 2023, já reuniu mais de 5 mil evangélicas em palestras e eventos de conscientização e formou mais de 300 multiplicadoras. — A igreja é a porta de entrada para muitas mulheres que nunca procurariam ajuda em outro ambiente. Nosso papel é garantir que essa porta leve ao caminho certo, e não ao silêncio — opina a pastora Cynthia Ferreira, fundadora do instituto Flores de Aço, que toca o projeto hoje. Apesar das iniciativas, relatos como o de Joana ainda são comuns. Não raro, o temor de que a separação desfaça o lar, que deve ser preservado pela ótica religiosa, leva mulheres a se manterem em relacionamentos abusivos. — O divórcio ainda é um tema muito desafiador para a maioria das igrejas evangélicas, defendido biblicamente somente em caso de adultério. A violência, seja ela física ou de outros tipos, muitas vezes não é considerada fator forte o suficiente para legitimar a separação. Muitas mulheres aprendem que, se forem firmes na fé e se dedicarem às orações e jejuns, poderão ganhar seus maridos para Cristo, obtendo, assim, uma mudança de comportamento deles — avalia Marília de Camargo César, autora de “O grito de Eva”, que reúne histórias de cristãs vítimas de violência doméstica. A percepção é corroborada pela pastora Helena Raquel, que cobra “avanço no diálogo” sobre o tema nas igrejas: — Precisamos reparar um discurso antigo e perigoso que indicava a espiritualidade da mulher ou da família como sua única forma de defesa diante do abuso e violência, quando, na verdade, ela é a primária, mas não a única. Entendo que a maior parte dessas vítimas não ouviu um conselho direto para permanecer nos relacionamentos, mas deixou de ouvir um conselho direto para não permanecer. (*Estagiários sob supervisão de Luã Marinatto)
Ler o artigo original
Visite a fonte para a matéria completa.




